O Projeto Força Feminina de Salvador realiza no próximo dia 30 de março o 1º Cirandas Parceiras de 2016 com a temática “Rede de Articulação Social”. O encontro pretende fortalecer a relação entre as diversas instituições vinculadas ao projeto para garantir os direitos das mulheres em situação de prostituição e outros grupos vulneráveis.
O Encontro Cirandas Parceiras acontece sempre na última quarta-feira do mês com o objetivo de criar um espaço de formação e articulação com parceiros buscando aprofundar temáticas acerca da realidade que estamos inseridos.
Carnaval e Invisibilidade social

Rose Cristiane Salvador

O Carnaval de Salvador é um fenômeno que nasceu no início do século 20 com as reuniões de foliões em clubes e bailes, não tendo nunca se furtado a reafirmar uma das suas mais belas características, ser o carnaval soteropolitano uma festa, fundamentalmente feita na rua, onde famílias inteiras desfilavam fantasiadas, dançavam e se divertiam no centro antigo da cidade do Salvador.

Em 1950 com a invenção da guitarra baiana e a invasão dos trios elétricos às ruas, diminui-se substancialmente a folia nos bailes e clubes, dando início a era dos blocos de mortalhas. Gradativamente surgem trios associados a blocos de carnaval fechados (com cardas), composto por foliões vestidos por abadás e endossado pelo surgimento das megaestruturas de luxo dos camarotes que juntos passam a dominar o Carnaval soteropolitano em um movimento elitista e excludente, por muitos chamados de a privatização das ruas, isso porque:

A rua, só em certos momentos: procissões, paradas cívicas e festas, que na Bahia são conhecidas como festas de largo. Para além dessas circunstâncias, a rua é lugar de trabalho, de compras, de serviços – a rua é sempre funcional. (FREYRE, 1951, v. 1, p. 18)

Uma forte tendência vem caracterizando o carnaval de Salvador nos últimos anos, a de ter no espaço da rua a sua mais liberta e feliz morada. Um espaço democrático, onde a rua volta a ser de todos, agregando cada vez mais diversidade, e como dizia o poeta Caetano Veloso na canção Um Frevo Novo: “A praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião (...)”. É certo que na rua continuam os camarotes e o bloco de abadás, mas também tem as fanfarras, as bandinhas, os batuques, as escolas de samba, a Mudança do Garcia, afoxés e blocos de índios que pelo simples fato de estarem na rua ratificam, valorizam e legitimam o verdadeiro o poder popular de uma festa tão poderosa.

O Carnaval é uma manifestação cultural, popular e ritualística que tem um forte significado social. É a reafirmação de uma posição e ideologia onde fantasia e realidade se misturam, e travestidos, reis, mendigos, princesas e palhaços transitam em iguais condições de diálogo e convivência, tendo na apropriação desse ritual a garantia para penetrar no coração da cultura de uma sociedade, na sua ideologia dominante e no seu sistema de valores, podendo assim transgredi-los.

(...) Ver e ser visto são duas faces de uma mesma moeda, em geral, nos encontros humanos. Por isso, as histórias de espionagem nos fascinam e mobilizam tanto, elas dividem a unidade da experiência social em duas partes: um personagem vê (sem ser visto) e o outro é visto (sem ver e sem saber-se visto). A solução da trama depende do esforço titânico do protagonista que, no último capítulo, consegue inverter a posição relativa dos personagens, redefinindo a equação: quem observa quem, afinal. (SOARES, 2008, p.165)

Nesse contexto, podemos afirmar que é o ritual que nos permite tomar consciência das cristalizações dos papeis sociais, onde cada um dos lados (fantasia e realidade) permite “esquecer” o outro e ser a sombra e a luz em um mesmo objeto de estudo.
Um jovem pobre e negro caminhando pelas ruas de uma grande cidade brasileira é um ser socialmente invisível. (...) No caso desse nosso personagem, a invisibilidade decorre principalmente do preconceito ou da indiferença, uma das formas mais eficientes de tornar alguém invisível é projetar sobre ele ou ela um estigma, um preconceito. Quando fazemos, anulamos a pessoa e só vemos o reflexo de nossa própria intolerância. Tudo aquilo que distingue a pessoa, tornando-a um indivíduo; tudo o que nela é singular desaparece. (SOARES, 2008, 165)

A Invisibilidade social é um problema conjuntural que atinge a sociedade como um todo, abrangendo do primeiro ao terceiro mundo. Esta miopia social é uma mazela em que todos sofrem as consequências, diferindo apenas, a forma como a sociedade vai encará-la e trata-la.

Para tanto cria-se em 2013 a ação denominada: Carnaval Social - um espaço democrático de folia e informação, que tem como objetivo dar visibilidade as ações desenvolvidas pelas Instituições locais, promover uma ação social conjunta e fortalecer, ainda mais, a rede de atendimento sócio assistencial junto à população do Pelourinho e adjacências. Esta ação é promovida pelo Projeto Força Feminina - instituição social, de caráter pastoral, iniciativa do Instituto das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor que tem por missão a promoção integral das mulheres em situação de prostituição, de maneira a colaborar no processo de conscientização e inserção cidadã.

O nascimento do Carnaval Social foi um processo constituído através da organização coletiva e articulada das instituições que desenvolvem seu trabalho junto a uma população vulnerável e invisibilizada do Centro Histórico de Salvador, e teve por consequência natural a nomeação do seu “cordão” momesco de O Bloco dos Invisíveis.

Ser invisível é não fazer parte do todo, ainda que se queira. É estar presente em um corpo sem alma, sem movimento ou querer. É, por muitas vezes, não reconhecer a necessidade de estar presente, integral e fazer suas próprias escolhas ou até mesmo desejar passar despercebido diante delas. Podemos ser invisíveis em diversas situações na vida, com ou sem ônus. Mas, dentre as diversas formas de miopia social, destacamos aqui a invisibilidade que maltrata, exclui e aliena, e é no combate a esse tipo de invisibilidade que o bloco dos Invisíveis dentro do projeto Carnaval Social se torna uma valorosa ferramenta geradora de diálogo, troca de saberes e acesso a direitos sócio assistenciais para a população carente do centro histórico do Salvador.


Referência Bibliográfica:

FREYRE, Gilberto: Sobrados e Mocambos, Prefácio à 1ª edição,. Rio de Janeiro, José Olímpio Editora, 1951;
SOARES, Luiz EDUARDO; BILL, Mv; ATHAYDE, Celso: Cabeça de Porco. 1. Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008

VELOSO, Caetano -  Música : Um Frevo Novo – 1977.