Carta para mulheres negras: “Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta.”

ans pula
*Por Ana Paula Rósario 
Nascida em Itabuna (BA) eu, Ana Paula Rosário, filha de dona Maria José Santos, irmã de Poliana Rosário, tia de Ana Clara, Ana Carolayne  e Thifanny Vitória (cinco dias de nascida), uma família de mulheres negras. Vim de Itabuna para Salvador aos 16 anos, em 2012 e não foi uma viagem planejada, mas sim uma viagem cheia de medo e tristeza. Medo por não saber para onde viria e pela tristeza de largar minha família sem saber quando iria poder voltar, esse foi o resultado das minhas escolhas, do envolvimento com drogas.
Menina que já tinha vivido de tudo um pouco, cumpria medida sócio educativa e ao passar do tempo as pessoas que mim acompanhava (Equipe técnica CMSOED RECANTO) acreditava que seria possível a minha resiliência, em meio as idas e vindas acabei sendo ameaçada de morte, por uma pessoa que um dia eu amei, esse foi o maior choque de realidade que eu já tive em toda minha vida, choque esse que mim fez/faz ser forte hoje.
Nesse cenário de desespero minha mãe correu contra o tempo, contra a minha morte, lutou com todas as forças para que eu fosse inserida em um programa de proteção, e fui. Precisei largar tudo e todos e ter somente uma certeza que do dia 05/03/12 eu caminhava sozinha aos 16 anos. Chegando em Salvador fui morar em um abrigo localizado no bairro de Mata Escura, na Acopamec- Casa Lar.  No dia em que eu cheguei pensei:  ‘’ chegou meu fim aqui’’! Comecei a chorar e pedir para voltar, mas eu não tinha para onde voltar, então resolvi viver a minha realidade naquele momento.
Logo quando cheguei uns três dias depois conversei com uma mulher e era uma mulher negra, Nevidalva Santos, psicóloga e naquele momento foi a primeira mulher negra que eu vi e não era empregada doméstica, eu não sabia se me identificava ou se chorava e eu mim identifiquei tanto que todos os dias queria conversar com ela, mas não podia porque eu não era a única no abrigo.
Eu acho que todas as pessoas que passou e passa em minha vida, ninguém além de minha mãe, nunca acreditou e apostou tanto em mim como ela. No abrigo ela sempre ia na casa que eu morava, almoçava e conversava com a minha educadora (uma das minhas mães) Tia Rosa, exemplo de mulher e de doação. Tia Rosa tem 20 anos exercendo a profissão de mãe social, mulher negra que me ensinou a pegar no garfo, a falar, a cozinhar …. Falando assim parece que eu era criança, mas eu tinha 16 anos.
Na equipe também tinha uma assistente social, Nivea Sacramento, que eu amo demais e agradeço pela dedicação, por me inserir em outros espaços. Também tem a irmã Rafaela Corvino que muito mim puxou a orelha e quando eu mais precisei ela me deu a mão. Tive varias outras mães sociais e acho que esse tempo que morei no abrigo, serviu para que eu aprendesse a lidar com as perdas, pois as vezes a equipe mudava e a gente tinha que se adaptar com a nova equipe, a mesma coisa era com a equipe do programa de proteção.
O tempo passou e muita coisa aconteceu.  Fui inserida na escola, em curso profissionalizante de culinária na Acopamec, quando nessa nova experiência conheci Fernando Filho, um homem negro que é formado em letras, falo das formações acadêmicas porque para mim naquele momento era novidade ver pessoas negras formadas. Esse cara mim convidou para participar de um grupo de discussão social e político, o Conexão Cidadã/Conexão Vida, permaneci nesse grupo quatro anos. Lá ele mim provocava e incentivava a ler.  Eu sempre gostei de debater, foi então que fui criando amor pela leitura e percebi qual era o meu papel na sociedade. Percebi também que nós não somos ensinados a estudar, muito menos a ler e escrever.
No processo fui mim destacando, evoluindo e Neve (Nevidalva Santos) conversou comigo, lembro como se fosse hoje e ela disse: “ Você vai começar a trabalhar. Estou confiando em você.”  Ela sempre foi e é muito rígida, fala forte e eu ficava até com medo de encontrar ela quando eu aprontava, ela sempre foi a pessoa que procurava/procuro para chorar no colo, ela é muito forte e eu queria ser igual a ela.
Quando fui para meu primeiro emprego, me descobri negra, sim me descobri, pois, sempre acreditei que era morena. Fui trabalhar no Odara – Instituto da Mulher Negra como menor aprendiz e quando cheguei fiquei surpresa, feliz e maravilhada porque no instituto só tem mulher negra e minha primeira conversa foi com Valdecir Nascimento, mim acolheu e apresentou a todas as mulheres. Aquela foi a primeira vez que eu tinha conversado com uma pessoa, fora as pessoas da instituição que não desconfiou de mim e não olhou como outra pessoa qualquer, sem querer saber porque eu morava na instituição, porque isso, porque aquilo, a pessoa realmente não tem noção de quantas feridas se abrem com certas perguntas, mas ela sentiu que não era bom fazer certas perguntas naquele momento.
No começo eu ficava bastante com Erika Souza conversava muito com ela, acho que eu enchia o saco dela, mas ela sempre atenciosa, já Daniele Bitencourt, essa sempre agitada, gosto da simplicidade dela. E aí conheci Naiara Leite eu sempre quis ser jornalista, mas achava que não era possível até conhecer ela, poxa a mulher é um furacão. Jornalista, negra, gorda, sapatão, bonitona e resistente. Então eu pensei poxa eu vou ser jornalista.
Nessa jornada ”Odara” veio Emanuele Aduni vaidosa, negra, mestra, enfermeira e Maísa Vale com um rasta enorme professora, poderosa, ouvi ela falar parece que o mundo acabou e só ficou ela falando, é bom demais! Contar resumidamente minha historia é necessário, pois, é possível perceber o quanto as mulheres negras que passaram pela minha vida foram e são importantes para minha formação.
Hoje eu sou feminista, ativista e continuo no Odara- Instituto da Mulher Negra.  Acredito que sou mais forte pela experiência e pela convivência com as mulheres negras. Na Marcha de Mulheres Negras, em 2015, eu tive contato com varias jovens e mulheres que compartilharam comigo suas histórias, conquistas e lutas, percebo que nós temos um sentimento de irmandade enraizado em nós, não vejo outro sentimento a não ser o de irmandade, porque se subimos puxamos a outra, se uma entra em uma “briga” todas entram, se uma não tem “ninguém”, passa a ter milhões de irmãs.
Eu me sinto acolhida e agradecida a esse movimento de Mulheres Negras que todos os dias apresenta coisas e alianças novas para mim.  Esse movimento que acredita na minha capacidade de liderança, mesmo eu sendo de uma geração mais nova que vem “ tombando” por aí.
Como dizia Luiza Bairros: “a homenagem só é válida se cada uma e se cada um efetivamente incorporar aquilo que é o legado de quem está sendo homenageado”. E eu me sinto “incorporada” pela força e pela coragem que é enfrentar o machismo, o racismo e o sexismo.
 Nós, jovens negras, temos a obrigação de dar continuidade a esta luta e fazer da força de vocês a nossa. Sou privilegiada por conhecer e conviver com mulheres negras empoderadas, que me permitem beber de uma água que é sagrada chamada conhecimento. Essa é minha humilde cartinha para vocês que “(R)existem”. É para vocês que não deixaram de acreditar na juventude negra. Para vocês que todos os dias levantam a bandeira contra o genocídio da população negra. Mesmo quando eu ouvia que não chegaria aos 16 eu sabia que uma luz iria aparecer e essa luz apareceu em quantidade, pois foram varias LUZES NEGRAS por isso eu amo essa fala de Carolina Maria de Jesus Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta.” Carolina vivi em mim assim como todas as mulheres negras vivem em mim.

Ana Paula Rósario é  negra jovem, militante do movimento de mulheres negras e do programa de comunicação do Odara – Instituto da Mulher Negra. 
Até quando?
"Fui agindo pelo meu impulso mesmo... [impulso] de homem", disse o funcionário de um hotel que fez uma cópia da chave do quarto da hóspede para estuprá-la e calculou todo o ato.
O caso aconteceu nesse hotel Íbis em Paulínia, no interior de São Paulo. Tudo teria começado com uma briga entre um casal de hospedes. Testemunhas dizem que o casal começou a se desentender enquanto bebia no bar do hotel. Depois do desentendimento, o homem trocou de quarto e deixou a namorada sozinha. Foi ai que entrou em cena o atendente do hotel, Paulo Henrique Marciano. 
Para a polícia, Paulo Henrique contou que fez uma cópia da chave do quarto em que a mulher estava hospedada. Depois que ela ficou sozinha, o atendente chegou a ir ao quarto para saber se ela estava precisando de algo. Mas quando terminou o turno de trabalho ele voltou ao quarto com outras intenções.
Com a ajuda das imagens feitas pelo circuito de segurança do hotel, a polícia prendeu Paulo Henrique em flagrante. Na delegacia, o rapaz tentou contar outra história. Admitiu que fez sexo com a moça, mas alegou que ela teria consentido. Só que depois de ver as gravações, ele admitiu o estupro.
Veja o vídeo no link abaixo: 

Prostitutas da Vila Mimosa fazem cartaz em inglês para atrair turistas e atletas nos Jogos

Programa que custa R$ 75 passa a valer R$ 40 em rua próxima ao centro e Maracanã 

Por não ter tantos clientes quanto esperavam na Copa do Mundo 2014, as prostitutas que atuam na Vila Mimosa, no Rio, buscaram uma forma de atrair turistas e atletas durante as Olimpíadas, que começa em um mês. Um cartaz confeccionado em inglês oferece programas mais baratos do que o preço normal: de R$ 75 cai para R$ 40. Algumas estão dispostas até a fazer sexo de graça com uma atleta famoso, caso isso signifique atrair publicidade para o local. As informações são do Daily Mail.
As expectativas das mulheres que atuam na rua, que fica próxima do centro da cidade e do Complexo do Maracanã, são mais realistas do que dois anos atrás. No cartaz, as prostitutas anunciam sexo por 30 minutos a R$ 40, sexo por 1 hora a R$ 60 e sexo a três por R$ 40 reais (cada). Caso o programa com as duas prostitutas dure 1 hora, o valor sobe para R$ 80 para cada uma. A prostituta Aline Docinha, de 39 anos, afirma que a medida foi tomada para não repetir o que houve na Copa.
— Estávamos todos esperando muito a Copa do Mundo, porque disseram que teria muita demanda. Pensamos que íamos fazer fortuna. Colocamos TVs gigantes, fizemos churrasco e festas com músicas nacionais, mas quase ninguém apareceu. A rua ficou praticamente vazia. Acho que os turistas tiveram medo de vir para um lugar tão longe das praias e hotéis.
Aline afirma que nem mesmo os clientes brasileiros apareceram na época. Ela diz que, com as Olimpíadas, as mulheres que trabalham na Vila Mimosa não estão mais iludidas. Ela descreve o local como um “supermercado do sexo” e espera que os turistas que estiverem na cidade durante os Jogos Olímpicos queiram conhecer as prostitutas que estão ali.
— Sabemos que vamos ser esquecidas como fomos durante a Copa do Mundo, por isso estamos sendo pró-ativas. Só queremos dinheiro para pagar as nossas contas.
Segundo a publicação, mais de 3.000 mulheres se distribuem em 70 estabelecimentos da Vila Mimosa para oferecer sexo. O Daily Mail diz ainda que no local é proibida a presença de prostitutos ou mulheres transexuais, como forma de “manter a tradição”.
Gabriela Alves e Aline Docinha falam sobre dificuldades na Vila MimosaReprodução / Daily Mail
A prostituta Gabriela Alves, de 39 anos, afirma que sustenta a família com os rendimentos que tem na Vila Mimosa. Ela tem uma filha de 22 anos, duas netas, sendo uma com necessidades especiais. A mãe de 89 anos também mora na mesma casa. Gabriela diz que embora a clientela tenha diminuído, o número de mulheres que se prostituem na Vila Mimosa aumentou.
— Nunca esteve tão ruim, e a maioria das mulheres aqui está desesperada. Mas poucas de nós acham que virá algo das Olimpíadas. Temos medo que fique parado, como na Copa do Mundo. As meninas novas vão fazer qualquer coisa, até sexo sem preservativo, para não perder clientes. Eu jamais faria isso.
Gabriela pretende deixar de ser prostituta, já que concluiu a graduação e pode arrumar um emprego melhor. Aline tem três filhos crescidos e diz ter feito carreira na profissão, inclusive dando palestras sobre o tema. Mas ela também espera sair da Vila Mimosa e “fazer dinheiro mais fácil”. Para os Jogos, ela espera que o cartaz funcione.
— Estamos dispostas a aceitar qualquer oferta. Eu mesma faria um programa de graça se um atleta famoso vier aqui e nos der um pouco de publicidade. Vamos esperar que Usain Bolt ouça sobre nós e nos dê uma chance. Um monte de gente que trabalha no Rio e está falindo espera um milagre das Olimpíadas. As prostitutas também. Não queremos ficar ricas, mas se der para pagar a conta de luz, já está bom.

Eu mereço ser amada

*Lívia Natália

A experiência do desamor é uma queixa comum entre mulheres negras. A cultura racista e sexista não nos criou como seres dignos de dedicação amorosa e nós, muitas vezes, não conseguimos nos compreender como sujeitos dignos de amor.
A palavra amor parece apontar para uma imaterialidade, uma interpretação. Mas nós, pelo contrário, sentimos o peso da sua materialidade cotidianamente, nós diuturnamente imaginamos que não merecemos ser amadas. A experiência do amor romântico nos foi roubada pelo processo de escravização, quando era impossível constituir ligações afetivo-familiares ou a vivência do romance, no entanto, percebemos os seus efeitos ainda hoje, nos aprisionando num lugar extemporâneo: enquanto muitas mulheres brancas querem a emancipação absoluta, inclusive do envolvimento amoroso, nós ainda precisamos do exercício do afeto, nós não aprendemos a amar.
O nó górdio da questão passa pelo gesto de auto-amor. Ouvimos todo o tempo nos dizerem que precisamos nos amar, nos valorizar, então, compramos potes de cremes e banhamos cabelo, pele, nos enfeitamos e maquiamos um sujeito completamente estilhaçado por dentro. Nós, por dentro, estamos como um campo sobrevivente a uma bomba atômica. Estamos dilaceradas. E isto, infelizmente, nos constituiu como seres humanos, estruturando a nossa subjetividade.
Nosso corpo, que jamais foi pensado como possível destino de afeto amoroso, foi sistematicamente vilipendiado durante a escravização e, depois, nos tornamos, ora sonho de consumo do macho branco, ora inimiga da mulher branca e, outras vezes, prêmio de consolação para o homem negro, quando não as três coisas ao mesmo tempo. O mundo da branquitude e do sexismo nos resumiu a uma genitália: nela se entra para alcançar o prazer, dela saem crianças para o mundo. E nós, sempre secundarizadas pela vagina, que, com o tempo, tornou-se tão alheia a nós que quase se converteu numa inimiga. Afinal, era graças a ela que éramos tratadas como cidadãs de segunda classe.
Ângela Davis, em Mulher, raça e classe, nos explica como se organiza esta equação: se fomos sempre corpos de uso, somos nós as últimas a ter direito de uso sobre nossos próprios corpos. O feminismo não nos abrigou, as mulheres negras eram, justamente, as inimigas das brancas, pessoas que precisavam ter seu desvalor continuamente afirmado por elas, inclusive pela sistemática exclusão das pautas destas mulheres dos interesses pelos quais lutava o movimento feminista, podíamos figurar para dar corpo ao movimento, mas continuávamos sendo as ladras de seus maridos.
O lugar de vítima nos foi, ora negado, ora impingido. Às mulheres brancas era impossível compreender que a hierarquia de raças enfraqueceria o movimento, aos homens brancos era essencial – inclusive no processo de conquista de direito ao voto – garantir que o sexismo se exercesse, tolerando o voto dos homens negros, mas não das mulheres. E prosseguimos sendo continuamente rechaçadas.
Mulher negra e afetividade
Quando penso na minha formação enquanto mulher negra, compreendo que ela se deu muito tarde. A despertença do corpo se dá de maneira muito eficiente. Nossos cabelos nunca são bons o suficiente, nossa beleza não pode soar excessiva – e, até hoje, luto contra o ímpeto de rebolar ou empinar as nádegas enquanto ando –, quando nossa vida sexual começa, ela costuma vir cedo demais, e nasce, muito comumente, de um afeto unilateral: nós amamos aqueles homens, que não nos amam. Em casa, na escola, na adolescência e na vida adulta, nós amamos como quem buscasse fugir, a todo custo, da casa vazia e do dedo sem aliança e os homens nos amam “do seu jeito”.
Peço desculpas pelo centramento na heteronormatividade das relações aqui pensadas, mas só me é dado, neste ínterim, falar deste lugar. As relações afetivas entre homens e mulheres negras sempre se dá num desnível afetivo, porque os homens negros não aprenderam a expressar afeto. Nós, que vivenciamos o sistemático recalque do afeto dentro das famílias, que aprendemos com nossas mães a sermos ferozes para proteger nosso casamento das outras negras aventureiras e das brancas que buscavam novidade sexual, nós, ensinadas pelas mulheres da nossa família a cuidar do nosso homem e, ao mesmo tempo, a evitar depender financeiramente deles, nós, com o tempo, fomos aprendendo a amar, mas da maneira errada.
Conheço mulheres negras, extremamente empoderadas, bem sucedidas e belíssimas que se expõem a relacionamento abusivos. Eu mesma fui uma delas. E o que mais nos machuca, é que, primeiramente, muitas vezes não percebemos que estamos sendo violadas por uma relação abusiva, e, depois, nós aprendemos a encontrar, à força, em nós mesmas, a justificativa para o abuso, seja ele qual for.
Conheço mulheres que fazem a sua vida orbitar em torno de um “ele”, deixando-se construir, diuturnamente, pelos humores da relação. Todas nós vivemos ou viveremos uma relação estruturada nesta desproporção afetiva. Chamo assim o desnível de afeto e envolvimento entre homens e mulheres. Cabe a nós alimentar a relação, como os alimentamos de comida e sexo. Cuidamos dos nossos parceiros e os maternamos exercendo sobre eles o lugar feminino que, muitas vezes, é o único, na visão masculina, digno de dedicação amorosa.
Nós eventualmente tentamos substituir as mães, na esperança de aumentar as possibilidades de amor. E ele, na maioria das vezes, não vem.
Desproporção afetiva
A desproporção afetiva também pode emanar de outros modelos de relação: se ganhamos mais, se somos altivas, bravas, intensas o homem negro não nos quer porque a possibilidade da preponderância sobre o feminino está perdida. Se nós não somos protegíveis, muitos homens entendem que não há espaço para eles na relação. Quando não, alguns se encostam confortavelmente no lugar (sob nossos proventos) aproveitando-se da histórica dificuldade financeira dos homens negros, e passam a ser, afetiva e financeiramente, dependente de nós, enquanto passeiam pela vida brincando com a autoestima de outras mulheres negras.
Os homens negros com a desculpa de que não puderam construir laços afetivos, uma vez que não os aprenderam, não receberam o exemplo, muitas vezes aproveitam-se desta situação não para se repensar, mas para justificar as infidelidades e sucessivos abandonos de suas mulheres e filhos. Nós os amamos, eles nos amam do jeito deles, e esta equação não pode dar certo.
Nós amamos da maneira errada porque os espelhos não nos abrigam, eles nos machucam. Amamos da maneira errada porque superficializamos nosso auto-amor, centrando-o na beleza física e desprezamos a mulher que vive por detrás daquela imagem. bell hooks, em Vivendo de amor, debruça-se sobre o tema do envolvimento amoroso, demonstrando que, infelizmente, nos falta um afeto que nos proteja de relações doentias e opressoras.
Não há mais chance de esperarmos que os nossos homens nos amem, principalmente se nós não somos capazes de fazê-lo. Aqui tomo o cuidado para não nos vitimizar, nem nos colocar no lugar de algozes de nós mesmas, mas sei que nós aprendemos a temer a solidão. Antes só do que mal-acompanhada, muitas vezes sai da boca de uma mulher que dorme sozinha, com uma cama recheada de travesseiros. Ninguém quer, deliberadamente, ser sozinho. Se o somos, é porque nossos homens não ‘deram conta’ de nós. Se o somos, é porque a relação degringolou em traições ou descuidos que geraram uma solidão terrivelmente acompanhada. O feminismo negro nos ampara, trazendo estas angústias para um conjunto, para a sensação de que não estamos atravessando sozinhas esta mata fechada que é o afeto, e, uma vez feministas, as nossas relações com os homens médios está fadada ao fracasso. Chimamanda Adiche afirma em Sejamos Todos Feministas que ela está com raiva, e a raiva nos é necessária ante tantas opressões sistemáticas.
A raiva é pedagógica, ela é potência! Mas, na maioria das vezes, estamos tão feridas que perdemos a força da nossa raiva enquanto mobilizadora de outras formas de relação: sobra uma fera raivosa e ferida. A raiva, boa parte das vezes, nasce de um corpo alquebrado, sim, porque a depressão gerada pela falência amorosa ecoa no nosso corpo também. Parte do que compreendo como auto-amor passa por lamber nossas feridas e seguir. Alimentar a raiva como potência de vida, e não de morte, ela é combustível, não cotidiano. Muitos nos feriram, muitos vão nos ferir, mas cuidar de nossa raiva, gerenciá-la, apontá-la para o inimigo certo nos poupa muito sofrimento.
Quando terminei a primeira versão deste texto, que recebeu a leitura de mais de cem pessoas, ainda insistiam em mim, duas questões. A primeira delas dizia respeito a minha escolha do verbo merecer. A segunda, sobre qual o papel dos homens negros no gesto amoroso. Começarei por esta.
A mulher negra, o homem negro: gestos de amor
Certa vez, conversando com um homem negro, afirmei que eles não sabiam amar as mulheres negras. Ele me indagou então, como eles deviam fazer isso. A minha resposta sobre como os nossos homens podem nos amar aparece aqui mais desenvolvida, e serve como resposta também a este homem.
Infelizmente, não tenho receita (estaria rica se a detivesse), mas tenho intuições, sentimentos e impressões. Antes de tudo, nos respeite. Respeite a complexidade da relação, tenha-a como relevante, essencial no seu cotidiano. Não podemos ser essenciais apenas para encontros fortuitos. Faça com que o afeto seja recíproco, cuidadoso, mas não opressor. Deseje o nosso corpo, precisamos disso, mas o acolha tudo que o acompanha, as demandas boas e as ruins.
Não nos oprima. Não seja abusivo. Reconheça em nós uma companheira, não uma companhia. Eu sei, isso tudo é uma dança cheia de movimentos complicados.
Se quisermos, em algum momento, falar de filhos, fale conosco sobre isso. E seja honesto. Machuca muito mais ouvir o que precisamos e não ter o que queremos do que a escuta de uma negativa sincera. Preocupe-se, junto conosco, com a contracepção, se for o caso. Deixar por nossa conta algo que deve ser pensado pelos dois é demais.
Sustente-se financeiramente e afetivamente (ou seja, não caia na armadilha óbvia do machismo, compreendendo a traição como afirmação da masculinidade). Use a intuição. Penteie os cabelos de nossas filhas, eduque nossos filhos, partilhando a responsabilidade amplamente, não como se fosse uma “ajuda”.
Não grite. Não nos diminua. Não nos abandone.
Sim, é demais, mas nós, mulheres negras, estamos condicionadas a sempre dar mais do que podemos, e isto está ficando pesado.
Auto-amor: algumas pistas
Nós merecemos ser amadas, sim. Mas o amor que qualquer parceiro pode nos dar, passa pela compreensão de que ainda nos amamos pouco e, infelizmente, estamos ainda longe de resolver isso. Não fomos formadas para nos amar apenas porque as mulheres e homens de nossas famílias não sabiam ou não podiam fazê-lo. Alimentar, sustentar financeiramente, dar abrigo físico são os meios de demonstração de afeto que nossos familiares tinham para nós. Infelizmente, dizer que ama não é algo natural entre famílias negras, certamente por que não se ouviu isto, certamente porque nossos pais precisaram nos criar para sermos fortes, para resistir.
O amor cura. Precisamos compreender que nossas lágrimas precisam ter lugar, nossas angústias, sejam elas quais forem, precisam ser ouvidas por nós mesmas, calar a dor é sofrer duas vezes. E a nossa alegria? Nosso sorriso, nosso contentamento, a dança que nosso corpo rotundo faz quando andamos, precisamos reconhecer nisso tudo partes do que somos.
Enquanto treinamos o afeto amoroso por nós mesmas, precisamos também fazer circular esta experiência. Somos muitas mulheres negras. Pela lógica, somos a maioria, e passamos pela vida muitas vezes sozinhas. Precisamos buscar construir a sororidade. Sair do eixo de rivalidade entre mulheres – construído também pela lógica sexista de poder – ela não pode ser a nossa prática cotidiana. A outra mulher negra não pode ser a nossa inimiga, precisamos irmanar nossas histórias.
Amar cura.
Penso que precisamos aprender a amar, amando a nós mesmas e às outras mulheres negras. Reconhecendo a irmandade que nos une, as questões pelas quais todas nós atravessamos. Valorizar-se e sentir-se digna de amor é um percurso trabalhoso para quem aceita a travessia. Não é fácil. Passa por relativizar o peso das relações afetivas, amando os homens do nosso jeito mas com reservas afetivas que nos protejam. Passa por entender a mulher que se olha no espelho, de findar com as angústias que cercam nossa autoestima. Vivenciar nossos cabelos, nossos narizes, nossas ancas largas como um percurso longo, às vezes difícil, mas absolutamente nosso.
A travessia de nós a nós mesmas, nós, ora sozinhas, ora juntas, é que precisamos fazer.
Eu mereço ser amada. Nós todas merecemos. E tudo começa nos amando em nossos defeitos, na raiz de nossos cabelos, nas nossas dúvidas e medos. Toda caminhada começa sondando o terreno, mas ninguém anda sem tropeçar: sejamos tolerantes com nossas fraquezas, julguemos menos os nossos atos, atribuamo-nos menos defeitos aprendamos a recomeçar.
O primeiro amor falhou, o segundo não deu, o terceiro quem sabe? Mas, antes de tudo, eu mereço ser amada por mim mesma.
*Com o meu agradecimento a Cidinha da Silva, Dayse Sacramento, Urânia Muzanzu e outrxs leitores que se dispuseram a ler a primeira versão deste texto.
** Prof.ª Dr.ª Lívia Natália é Chefe do Departamento de Fundamentos para o Estudo das Letras, Adjunta do Setor de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Bahia.

Dia 12 de julho 2016 morre a grande Luiza Bairros. Ela foi de tudo: ativista, professora, ministra. Gaúcha e baiana. O texto que segue foi resultado de um passeio por Salvador ao seu lado. Publicado na revista Vozes e Faces da Articulação para o Combate aos Racismo Institucional (CRI), em 2007.

Quando o avião se aproxima de Salvador, os pelos da alma arrepiam. Primeiro, o Atlântico enfeitado com barcos de pesca. Depois, a Baía de Todos os Santos ornada com esplendor e, por fim, as dunas. Em terra firme, e navegando nas tantas águas, encontra-se a maior população negra por metro quadrado do país.
O aeroporto de Salvador chama-se Deputado Luís Eduardo Magalhães, em referência póstuma ao filho de um dos mais poderosos políticos do Brasil, Antônio Carlos Magalhães (ACM), também falecido. O aeroporto já se chamou 2 de Julho, em justíssima homenagem a uma das mais importantes rebeliões em prol da independência do Brasil.
Embora a importância do fato tenha sido preterida quando da mudança de nome, o 2 de Julho, além de feriado, é festejado com muito orgulho e alegria pelo povo baiano. Pensando melhor, talvez o aeroporto de Salvador devesse se chamar Dos Orixás. Afinal esta é a capital dos terreiros de candomblé e de todos os santos, mas estes já dão nome à baía.
O que levou a gaúcha Luiza Bairros a trocar Porto Alegre por Salvador foi a concentração de afro-descendentes. Passeando pela Baixa do Sapateiro, no sopé do Pelourinho, a mulher negra, nascida e criada na Porto Alegre de maioria branca, se surpreendeu: O que é isto? Como será viver em uma capital onde os negros estão por toda parte? Faz mais de vinte anos que Luiza tenta responder  a essa pergunta e a muitas outras baseadas nas relações interraciais brasileiras.
Luiza Bairros está para o movimento de mulheres negras como um peixe está para o mar. Ela é uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é combate à descriminação racial. Além de professora universitária, coordena projetos e programas de combate ao racismo institucional. Para ela: O racismo tem muitas caras. Muitas vezes ele se disfarça, para aparecer mais forte depois.
Passear com Luiza pelo Pelourinho, espécie de Veneza seca, é instigante e instrutivo. Ela vai apontando as contradições soteropolitanas. Pelas ruelas da cidade sobram musicalidade, alegria, manifestações sincréticas de fé, ginga, trabalho.
Em toda Salvador, as ruas são do povo como o céu é dos pássaros. Mas os espaços de poder, os comandos de empresas e de instituições, seguem nas mãos da minoria branca.
O imenso mural na parede do Plenário da Assembleia é exemplar! A representação é da Procissão do Bom Jesus dos Navegantes, uma prática religiosa-cultural das mais antigas da Bahia. Dentro do barco, estão Jesus crucificado, vários políticos brancos e dois ou três negros ilustres. O povo negro aparece debaixo das águas empurrando o barco. São figuras fantasmagóricas.
Sabemos que a representação simbólica, ao lado do pão, nos alimenta. Ela é capaz de formar, conformar, deformar. Mas a realidade não é maniqueísta. Nesta mesma Assembleia Legislativa, assenta-se a Comissão Especial para Assuntos da Comunidade Afro-Descendente (Cecad) com propostas de ajudar na erradicação do racismo e de suas manifestações discriminatórias.
Luiza Bairros acredita ser urgente discutir a institucionalização do combate ao racismo. Para ela, alcançar lugares de poder é apenas metade do trabalho. Ser capaz de criar alternativas de articulação dentro destes espaços é a outra metade. Os avanços precisam ganhar velocidade para beneficiar a base da população negra.
A surpresa
Em pleno Terreiro de Jesus, Luiza entra no imponente prédio da antiga Faculdade de Medicina. Trata-se da primeira escola médica do Brasil, criada por decreto de Dom João VI, no começo do século XIX. Nesta faculdade, Nina Rodrigues e outros médicos formularam teorias nas quais os negros e os indígenas aparecerem como intelectualmente inferiores aos brancos. Nina Rodrigues criticava a miscigenação. Ele carimbava o mestiço como “naturalmente” desequilibrado e degenerado. Imaginem: a construção da eugenia brasileira em plena Bahia!
Logo na entrada do prédio, o visitante dá de cara com o Museu Afro-Brasileiro, sob a supervisão do Centro de Estudos Afro-Ocidentais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Seu riquíssimo acervo conta com máscaras, cerâmicas, tapeçarias vindas da África e de origem brasileira.
Todavia, manter-se no antigo prédio da Faculdade de Medicina não é algo tão pacífico quanto parece. Marcelo Cunha, coordenador do Museu Afro-Brasileiro, aponta como racismo institucional as tentativas de desalojar o Museu: Há médicos que não suportam a ideia da cultura negra ocupar algumas salas deste prédio. Eles acham que estamos maculando o ambiente.
Maculando não estão, mas subvertendo a “ordem” sim. Afinal, essa escola, que no passado tratou tão mal e preconceituosamente a população negra baiana, agora é sede do Museu que canta a tradição da negritude. Luiza Bairros deixa o Terreiro de Jesus em direção à sede do já lendário CEAFRO – Educação e Profissionalização para a Igualdade de Raça e Gênero.
A chegada é um tanto tumultuada, o teto da sala de computadores desabou. Ninguém se feriu. Mas o susto e a sujeira foram grandes. Na sala de computadores, garotas e garotos negros têm acesso ao mundo virtual e à esperança de um emprego. A coordenadora geral, Vilma Reis, mestre em Ciências Sociais, não tem papas na língua: Gerações e gerações de jovens negros e negras experimentam, ao longo da história, a negação sistemática do acesso a bens sociais e institucionais. Portanto, as políticas afirmativas são para ontem. Opinião corroborada pela linguista Maria Nazaré Mota de Lima, coordenadora adjunta de projetos.
Nossa próxima parada é na Liberdade, o mais negro dos bairros da cidade. Aqui há um viaduto com o nome de Zumbi dos Palmares. Aqui se encontra o terreiro de Mãe Hilda Jitolu que, ao lado de Mãe Stella de Oxóssi, foi indicada para o Premio Nobel da Paz do ano de 2005.
Fica na Liberdade a ladeira do bloco afro Ilê Aiyê, afamado mundialmente, que rendeu os versos de Paulinho Camafeu, imortalizados pela voz de Gilberto Gil: Branco, se você soubesse/ o valor que o preto tem / tu tomava banho de piche/ e ficava preto também/ Não te ensino minha malandragem/ nem tampouco minha filosofia/ Por quê?/ Quem dá luz a cego/ é bengala branca e Santa Luzia.
Acarajé militante
Com o começo da noite, e porque Luzia Bairros não é de ferro, o programa é comer os quitutes da Dinha, no Largo de Santana, no Rio Vermelho. O Largo é também um ponto de encontro sem precisar combinar antes.
A primeira que cumprimenta Luiza é Terezinha Gonçalves, amiga e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim).  Nascida e criada em Salvador, Terezinha é testemunha de várias manifestações racistas. A última delas aconteceu em um posto de saúde. Ela estava no final da fila quando foi chamada por uma atendente para passar à frente dos outros. Teresinha é branca e os outros eram negros.
O segundo encontro é com Valmir França Santos, o França. Ativista do Movimento Negro e fundador do bloco afro Os Negões. França acredita que a riqueza cultural afro-brasileira pode ser um instrumento poderoso de luta contra o racismo. A cultura é um esteio para o empoderamento. Também diz que é preciso uma quantidade enorme de trabalho para politizar a grande massa, pois o Estado brasileiro é complacente com o racismo. Esta complacência corrói a diversidade, nossa maior riqueza.
França, Terezinha e Luiza concordam que os esforços do Movimento Negro necessitam se tornar políticas públicas. As ideias precisam concretizar-se para chegar no coração social. É necessário deter a violência policial que extermina garotos negros. Deter a violência do racista brasileiro que nunca se assume, mas que discrimina com naturalidade. Deter a violência doméstica e interpessoal. O racismo é um dos eixos estruturantes da desigualdade social brasileira. Ele divide a cidadania em primeira e segunda classes.
Luiza Bairros se despede. Vai caminhando para o bairro da Federação onde mora. Ela tem convicção de que, na Bahia, há um conjunto de ações voltado para a institucionalização do combate ao racismo. Mas, a exemplo das estrelas, essas ações de brilho próprio estão distantes entre si. Promover a articulação entre ações, programas, pessoas é o grande desafio do século 21 .


Leia a matéria completa em: Luiza Bairros (1953-2016) Por Fernanda Pompeu - Geledés http://www.geledes.org.br/luiza-bairros-1953-2016-por-fernanda-pompeu/#ixzz4EI25Xlwj
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Agora É Crime: Senado Aprova Prisão Para Quem Cometer Racismo E Discriminação Na Internet.

Foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), um projeto de lei que prevê a pena de prisão para quem cometer crimes de racismo e discriminação pela internet, inclusive para aqueles que repassarem as ofensas adiante.

A proposta é do senador Paulo Paim, a PLS que atualiza a lei de racismo no Brasil, também dá ao juiz a possibilidade de interditar mensagens ou páginas de acesso público. Sendo assim, quem for acusado de preconceito por raça, cor, etnia, religião ou nacionalidade cometido por meio da internet, ou de qualquer outra rede de computadores destinada ao acesso público, poderá ser condenado a pena de reclusão de dois a cinco anos, além de multa.

O relator da proposta, o senador Telmário Mota (PDT-RR), lembrou durante a leitura do parecer que a internet é tida por muitos como “território livre”, sendo usada como cenário da manifestação de discriminações e preconceitos variados.

“Num momento em que a sociedade se encontra profundamente dividida, e em que proliferam comportamentos marcados pela agressividade e pela intolerância, que ofendem os valores que aprendemos a respeitar como fundadores da nação brasileira, qualquer iniciativa que objetive coibir os excessos de comportamento, incentivando o cultivo civilizado – e educado – das diferenças será sempre bem-vindo”, afirmou o relator em seu parecer.

O texto segue para a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) e, depois, à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), à qual caberá decisão terminativa.

Sororidade na prática e na rede

Tatiana Mendonça

A jornalista Sueide Kintê criou a campanha Mais Amor Entre nós, na qual mulheres doam serviços

No dia 12 de março, a jornalista baiana Sueide Kintê, 30, escreveu no Facebook que podia doar uma hora do seu dia para ficar de babá, ensinar a nadar, trançar o cabelo, meditar junto, tirar uma ideia do papel. Recebeu na mesma hora um monte de mensagens de mulheres interessadas nos seus serviços. A primeira coisa que fez foi dar aula de natação para a amiga de uma amiga. Elas se jogaram de um tobogã no mar e, por graça de Iemanjá, Sueide foi na frente, porque a moça era uma destemida mesmo. "Mas foi muito bom", ri.
Depois, apareceram duas desconhecidas na porta da sua casa para que ela mudasse seus cabelos. E assim, de apoio em apoio, Sueide acabou tirando da internet a campanha Mais Amor Entre Nós. Em três meses, a hashtag que transforma o conceito de sororidade em prática se espalhou por quatro estados e três países. Já apareceu de um tudo, desde aula de matemática à consultoria para sair do armário.
Hoje, Sueide dedica muito mais de uma hora diária ao projeto. Ao lado de outras mulheres, está criando um site que consiga reunir todas as doações e também um aplicativo, para o qual ainda faltam recursos. Antes disso, já tem muita coisa acontecendo. Como aquela moça que apareceu em sua casa para trançar o cabelo e acabou criando um coletivo de advogadas para prestar assistência jurídica gratuita a mulheres vítimas de violência, o #TamoJuntas. "Oferecer algo é revolucionário. E a gente sempre recebe mais do que dá".
Acompanhamento às Mulheres em Situação de Prostituição.
Valtemi Barreto Galdino.

O doce amargo.

Trabalhar com o contexto de prostituição é complexo, vai além do simples entendimento humano, é o mesmo que mergulhar em águas profundas e bater de frente com um lugar visivelmente visto pela sociedade como o “mal”. Acompanhar as mulheres deste contexto é despir-se de si, é ir ao encontro de uma realidade desconhecida por muitas pessoas, é o mesmo que entrar e sair do encontro com a mulher, construindo vínculos e empatia, é entrar sem ser convidado/a, tirar as sandálias e pisar nesse terreno como uma terra sagrada.
Este artigo vem seguindo um modelo de ordem, baseado em uma Proposta Pedagógica criada pelos Fundadores do Instituto das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor – Pe. José Serra e Madre Antonia - desde o século XIX e que segue sendo revisada e recriada até os dias de hoje, respeitando a cultura e realidade dos povos, dos lugares por onde esta Instituição se faz presente.  
Os/as trabalhadores sociais que vão se inserindo nessa realidade acabam tornando-se um instrumento de luz na vida das mulheres em situação de prostituição, porque a procura por uma solução é constante, a busca pela necessidade de ser escutada e ser orientada ultrapassa as expectativas de quem as acompanham.
Estar nesse espaço de acolhida às mulheres, muitas vezes procurado como a sua última esperança, exige de quem acolhe ou acompanha a mulher, muito respeito ao escutar os seus relatos carregados de histórias que estão a ponto de explodir a qualquer momento. É ter que se despir de conceitos e preconceitos, com um ouvido fino e o desejo de caminhar juntos e, no que lhe corresponde, orientar, acompanhar ou encaminhar. É se fazer Luz em novos caminhos turvos que as mulheres percorrem .
Assim, a missão do Instituto das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor tem como propósito desenvolver um acompanhamento com sigilo, em respeito à história de vida das mulheres em situação de prostituição e para realizarmos um trabalho com eficácia, contamos com uma equipe multidisciplinar formada por trabalhadores sociais de diferentes especificidades numa equipe que reúne irmãs e funcionárias/os e também contando com apoio de parceiros sociais, voluntários de outras organizações, para encaminhamentos nas áreas jurídica, social, de saúde entre outros.
O acompanhamento é desenvolvido a partir do primeiro contato, seja na sede do Projeto ou nos diversos locais de visita onde é feita abordagem. Depois desse encontro vai se estabelecendo vínculos de aproximação e confiança com as/os trabalhadores sociais. Quando a mulher chega à sede do Projeto é feito o primeiro contato que chamamos de acolhida como uma estratégia principal de escuta e a partir desse momento, pouco a pouco, vai aumentando cada vez mais esse elo, onde se pode estender e aprofundar a partir dos relatos contados pelas próprias mulheres sobre suas histórias de vida.
“Aqui eu já converso sobre minha vida, choro e tudo mais”.
“Aqui, mesmo que vocês não possam nos ajudar, no mínimo nos ouvem,                                   isso é muito importante ter alguém para nos amparar. ”
“Olha, eu não gosto de mentiras e essas mulheres, essas putas da Praça tudo são mentirosas, chegam aqui dizendo que tem isso e aquilo, que tem família rica, tem ouro, tem fazenda,                       mas na verdade não tem nada, são tudo umas fudidas, miseráveis”.
Tem-se a consciência de que é um trabalho amplo em se tratando dessa problemática, pois a própria mulher rotulada com estigma e vítima de violação de direitos, é carregada de preconceito e de uma pobreza de conhecimentos com respeito às Políticas Públicas, distanciando-se do acesso aos seus direitos de cidadã.
Por isso, os acompanhamentos e as formações oferecidas pelo Projeto visam possibilitar que as mulheres assistidas aprendam a conhecer seus direitos, a descobrir valores, a adquirir autonomia para que externem suas opiniões acerca dos aspectos positivos e negativos, na medida em que se consolida um espaço de diálogo com discussão e reflexão.
Segundo os relatos, a maioria das mulheres que o Projeto Força Feminina acompanha, se esconde atrás de “cortinas” impossibilitando-as de usarem seu próprio nome, de revelarem a sua identidade, tudo isso pensando em se preservar e também ocultar-se dos familiares, por vergonha ou medo de ser descoberta, e da justiça, por conta de uma série de problemas que são criados nesse contexto de prostituição, que muitas vezes está ligado ao envolvimento com tráfico de drogas, roubos, assassinatos, entre outros.
“eu já passei por várias coisas, só Deus que me salvou, até arma na cara já tive (...)”.
“... eu preferi deixar para lá! Continuar ia dá em desgraça, com meus filhos, ele tentou matar”
“Ali era parceira, não tinha besteira com nada, com ela tudo era repartido, até a maconha,      eu era que às vezes, que pisava na bola com ela.”
“Na cadeia, chegava os quilos de comida, para mim e pra ela, como ela estava doente não comia nada, era eu que passava o rodo, e comia tudo, ela só fazia olhar para mim,                                 e dizia vai morta fome, e eu mi acabava de rir”.
O Instituto das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor prepara e capacita uma equipe multidisciplinar, apostando em trabalhadores sociais sensíveis à causa da mulher, prontas/os a atender a essa demanda, com os sentidos apurados, propícios a cada vez mais desenvolver uma escuta bem veraz.
Sua Proposta Pedagógica tem como objetivo capacitar as mulheres de baixa prostituição, com intuito de que adquiram conhecimentos com respeito aos direitos dentro da sua própria realidade, buscando assim que a mesma possa construir com suas próprias mãos e andar com seus pés.     
Durante as ações realizadas em vários momentos e em diversos espaços percebe-se a presença do sagrado em cada mulher e até se desenvolve momentos específicos com a proposta de acolher a divindade que habita nas mulheres e em seu contexto histórico, desde o respeito à cultura e a sua história de vida.   
A realidade de vida dessas mulheres em situação de prostituição é complexa, ambígua e desafiante, principalmente considerando o contexto em que estas mulheres estão inseridas, tais como: pobreza, drogas, luta por sobrevivência, contexto patriarcal, violências, e essas são umas das muitas realidades destas mulheres que se mostram fortes, muitas das vezes alegres, mas por dentro carregam uma amargura infindável. Mostram-se desconfiadas, mas tranquilas, trazendo muitos segredos de si e do contexto da prostituição em que vivem, demonstrando uma baixa autoestima.
Então, o acompanhar é envolver-se sem se misturar, compreender o que a olho nu não seria compreendido, é mergulhar numa realidade, cultura ou crença, que talvez seja diferenciada da sua ou não. É estar lado a lado o tempo todo servindo de lamparina incandescente. A partir do momento que o/a trabalhador/a em sua ação educativa realiza esse encontro não é simplesmente encontrar com uma pessoa comum e sim abraçar também um contexto histórico de vida, isso com muito carinho e respeito.
Assim vão surgindo a cada dia esses emaranhados de assuntos ou problemas, nos milhares e milhares de casos diferenciados que as mulheres trazem para o nosso âmbito de trabalho, seja nas Rodas de Conversa, no espaço de Cantinho da Beleza, em Seminários, nos encontros de Cirandas Parceiras, numa Oficina Roda Viva, em uma conversa individual, também em visitas, seja hospitalar, domiciliar, em presídio feminino, ou em locais de prostituição.

Em tudo somos chamados/as a analisar este lugar, como uma escola da vida, onde se entra cheio de expectativas e ideais, pensando, “ó, já estou pronto/a para semear conhecimento”, mas na verdade é mais um passo de desafio e que o/a trabalhador/a social vai aprendendo a lidar com a mulher e seu contexto de prostituição; é cirandar em águas profundas, levando e buscando um novo, é experimentando sabores, cheiros e gostos de cada realidade.