quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O Projeto Força Feminina confraterniza o Natal!


Foi em um clima de muita harmonia que as mulheres atendidas e as trabalhadoras sociais do Projeto Força Feminina celebraram a Festa de Natal.

A acolhida ocorreu com tranquilidade, onde as mulheres ao chegar foram conversando, socializando umas com as outras, revendo colegas de outros tempos.

A celebração se iniciou com reflexões sobre a vida, as escolhas que são feitas e a certeza de que Deus sempre nos dá uma segunda chance, e o Natal e o Ano Novo, além de ser tempo de perdão é também um tempo de recomeço...



Mas para recomeçar, é preciso fazer silêncio, meditar e esperar por esse tempo, diante disso, foi feita a reflexão do Advento, que é um tempo de espera, é um tempo de preparação e alegre espera do Senhor. Esse Senhor que vem para todos, para os desvalidos, para os pobres, para os carentes, para os menos favorecidos, e como prova de sua humildade nasce em uma manjedoura simples entre bois, vacas, cabras e ovelhas em um celeiro de Jerusalém. Um anjo do Senhor desce aos 25 de dezembro e anuncia a chegada de um Rei que irá mudar o mundo e abalar as estruturas sociais, anuncia a três simples pastores que guiados pela estrela de Belém o buscam até encontrá-lo em 06 de janeiro.



As mulheres ficaram atentas à reflexão sobre o momento do Advento, do Nascimento do Deus Menino, e da alegria dos Três Reis Magos ao encontrá-lo. De forma lúdica e criativa, elas fizeram a representação teatral da busca dos três simples pastores do Oriente que depois se tornaram os Três Reis Magos.



Houve uma emoção muito grande quando as mulheres assistiram ao clipe com a retrospectiva de 2017 contendo as fotos delas. O coração das mulheres não aguentou a emoção, elas bateram palmas e não seguraram o choro. O momento contagiou a todos que envolvidos em um clima mágico de carinho e união se confraternizaram desejando uns aos outros tudo de bom que as pessoas devem se permitir ter sempre em suas vidas, não apenas no Natal: Amor, Carinho, Paz, União, Fé, Alegria, Realizações e muitas conquistas!!!


É isso o que o Projeto Força Feminina deseja a todos os que estão sempre conosco, à nossa Família Oblata, às mulheres atendidas, aos parceiros, visitantes e voluntários, o nosso Fraterno Carinho e Gratidão e que em 2018 possamos estar cada vez mais unidos no intuito de fazemos o melhor para aqueles que nos procuram. Que em 2018, sejamos o Sal da Terra, o Sal da Vida!!!

Um Natal repleto de Amor e um Ano Novo cheio de Bênçãos e com muitas Realizações!!!

Que venha 2018!!!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A vasta e vergonhosa lista de feminicídios na Bahia em 2017

Daiane Reis, 25, morta em Serrinha aos 9 meses de gravidez, foi a 39ª vítima

Maria Vera, Andreza, Helem, Luana, Vanúcia, Janaína, Daniela. Agora, Daiane. Essas são apenas algumas das mulheres que, em 2017, foram vítimas de feminicídio. Não faltaram motivos; justificativas que tentassem explicar o inexplicável: ciúmes, discussão, traição, ameaça de expor a relação. Nenhum era o verdadeiro: elas morreram porque eram mulheres. 
Em 2017, até 18 de dezembro, foram pelo menos 39 casos – um levantamento feito pelo CORREIO identificou 33 dessas vítimas. Em comum, todas histórias com o mesmo nível de crueldade e que despertaram a mesma revolta. E histórias que parecem não ter fim. 
No sábado (16), o machismo fez mais uma vítima. A estudante de Nutrição Daiane Reis, 25 anos, morta em Serrinha, no Centro Norte do estado, pelo marido, identificado como Adilson Padro Lima Júnior, 25. Daiane, que já tinha um filho de um relacionamento anterior, estava grávida de nove meses. A pequena Maria Clara deveria nascer, fruto de uma cesariana, nesta segunda-feira (18). 
No entanto, este foi o dia em que mãe e filha foram enterradas juntas. Daiane desapareceu na tarde de sábado, mas o corpo só foi encontrado na manhã de domingo (17), por ciclistas, em um matagal no povoado do Murici. Ao lado do corpo de Daiane, a polícia encontrou um projétil de revólver calibre ponto 32.
Ao ser interrogado pela polícia pela segunda vez, no domingo à noite, Adilson confessou o crime. Ele foi preso em flagrante e deve responder por feminicídio. De acordo com o pai de Daiane, o comerciante Rubens Mota, 54, Adilson pegou seu carro emprestado, por volta das 13h do sábado, para levar a mulher para fazer compras do enxoval do bebê. "Ele usou meu próprio carro para fazer uma barbaridade dessas com a minha filha", lamentou o comerciante.
O crime teria acontecido cerca de uma hora depois que ele pegou o carro. Pouco depois, ainda no sábado, ele ligou para o sogro para dizer que Daiane tinha sumido. Toda a família iniciou uma busca para tentar localizar Daiane. "Nós começamos a ligar para os hospitais de Serrinha, Feira de Santana e Salvador, para tentar levantar alguma informação", contou Rubens. 
Adilson também participou das buscas e, no domingo, prestou queixa sobre o desaparecimento da mulher. Os familiares da vítima começaram a desconfiar do marido porque ele foi a última pessoa a ter contato com Daiane. "Ele era uma pessoa do nosso convívio e a gente não imaginava que ele seria o autor. Até a noite de ontem (domingo), eu acreditava que ele era inocente", desabafou Rubens.
De acordo com a polícia, após o desaparecimento, foram analisadas imagens de câmeras da região próxima onde o corpo foi encontrado. Uma das câmeras, ainda de acordo com a polícia, gravou o veículo do pai de Daiane seguindo para local às 14h e retornando 30 minutos depois.
Subnotificados
Foram 39 vítimas de feminicídio em 2017, mas podem ter sido mais. Bem mais. No entanto, como a lei do feminicídio é recente – desde 2015, o feminicídio é uma qualificadora do homicídio –, a tipificação do crime desde o início ainda é um desafio. “Os dados são altos, mas são subnotificados. Muitas vezes, visitamos delegacias e identificamos a necessidade de maior subsídio no registro da ocorrência, para que seja feita a tipificação do feminicídio”, diz a secretária estadual de Políticas para Mulheres, Julieta Palmeira.

Até hoje, a Bahia já registrou três condenações por feminicídio. Para a desembargadora Nágila Brito, titular da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), o número é ‘razoável’, considerando que o processo tem duas fases. “Felizmente, a sociedade tem respondido bem, porque quem vota em caso de júri são jurados e a sociedade é representada. O Judiciário está fazendo um esforço para julgar rápido”, garante.
Mas ela destaca que o feminicídio não acontece da noite para o dia. Por vezes, o feminicídio é o ponto final de abusos frequentes – sejam físicos ou psicológicos. Muitas das vítimas eram mulheres que sofreram por anos. E, para a desembargadora, não é raro que a família tenha alguma culpa. 
“Às vezes, a mulher quer se separar, mas a família não apoia, tem aquela visão tradicional de que casamento é para sempre, que homem é assim mesmo. São esses pensamentos da sociedade patriarcal que matam. É toda uma cultura, uma situação muito grave e muito dolorosa”. 
Titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Periperi, a delegada Vânia Matos atende casos de violência doméstica diariamente. Diz que passou a fazer de sua rotina tentar mostrar às vítimas que lá chegam sobre o feminicídio. 
“Nenhuma mulher que registrou ocorrência aqui sofreu feminicídio, mas a gente conversa muito com elas sobre isso, que é um crime difícil pelo vínculo. Nenhum crime é justificável, mas o vínculo é muito grande e acaba proporcionando essas oportunidades”.  
Segundo a secretária Julieta Palmeira, mais do que um problema de violência, o feminicídio é uma questão de saúde pública. “E existe um agravante que é o racismo estrutural da nossa sociedade, porque as mulheres que mais sofrem feminicídio ou violência são as mulheres negras, porque existe a intersecção entre machismo, racismo e desigualdade social”. 
Conheça 33 das vítimas de feminicídio em 2017 na Bahia, segundo a polícia:
1. 2 de janeiro - Medeiros Neto - Maria Vera da Silva, 39 anos, morta pelo marido
Maria Vera da Silva, 39 anos, teve um relacionamento com Leonatan Borges Silva, 27, por 14 anos. Os dois, que eram soropositivos, viviam juntos há 14 anos em uma casa que fica em um terreno que pertencia ao pai dela. Após uma discussão, Leonatan esfaqueou a esposa na cabeça. Ele manteve o corpo de Maria Vera escondido em casa por dois dias, até que foi preso em flagrante, enquanto tentava fugir. 

2. 30 de janeiro - Teixeira de Freitas - Leidiane Silva de Jesus, 20 anos, morta pelo ex-marido
A jovem Leidiane Silva de Jesus, 20 anos, tinha terminado o relacionamento com seu ex-marido, Erli Silva Viana, 40, uma semana antes de morrer. Ela foi morta a facadas após uma discussão, na qual testemunhas teriam ouvido gritos de socorro. O próprio irmão de Erli, segundo a polícia, o viu fugindo da casa de Leidiane, no município de Teixeira de Freitas, no Extremo Sul da Bahia. 

3. 1º de fevereiro - Feira de Santana - Josenice de Jesus Cunha, 49 anos, morta pelo namorado
Josenice de Jesus Cunha, 49 anos, foi assassinada com uma facada no peito pelo namorado, Jackson dos Santos Lima, 38. Segundo a polícia, Josenice estava bebendo em casa com três amigos quando Jackson chegou. O casal teria então ido para a cozinha da casa e lá começaram uma discussão. Jackson pegou uma faca e atacou a namorada, que gritou por socorro.

4. 27 de março - Salvador - Cássia Cristina Conceição da Silva, 47 anos, assassinada pelo namorado
O assassinato da cuidadora de idosos Cássia Cristina Conceição, 47, aconteceu na Travessa Beira Rio, na casa da própria vítima, em Nova Brasília de Itapuã, durante a madrugada do dia 27 de março. A agressão foi alertada pela vizinhança, que acionou policiais militares. Cássia já tinha percebido a presença do ex-namorado Antônio Marcos Rocha, 47, e contou à uma vizinha, proprietária do imóvel em que a cuidadora morava.

5. 31 de março - Conceição da Feira - Wagna Andrade Soares, 47 anos, morta pelo namorado
A subtenente da Polícia Militar Wagna Andrade Soares, 47 anos, foi encontrada morta em um matagal em Conceição de Feira, a cerca de 120 km de Salvador. De acordo com a polícia, o homem que afirmou ser namorado da vítima confessou o crime. 

6. 17 de abril - Salvador - Andreza Victória Santana da Paixão, 15 anos, morta pelo ex-namorado
A polícia afirma que Andreza e o acusado, Adriel Montenegro dos Santos, 21 anos, namoraram por dois anos, mas que ele não aceitava o fim do relacionamento.Victória foi vista com vida pela última vez quando deixou a Colégio Rotary, na ladeira do Abaeté, para ir até a casa do ex-namorado por volta das 17h30. Ao CORREIO, uma amiga contou que o casal estava separado havia 8 meses. O pai de Adriel, que é PM, foi quem socorreu Victoria depois que ela foi baleada na varanda da casa. 

7. 21 de abril - Alagoinhas - Rosângela Gomes Costa, 35 anos, morta por dois homens
A professora universitária Rosângela Gomes da Costa, 35, foi encontrada morta dentro de sua casa no dia 21 de abril no município de Alagoinhas. Ela estava amordaçada, amarrada na cama e com pelo menos oito perfurações pelo corpo. Edvan Alves dos Santos e Lenildo Santos da Silva são acusados pelo crime. Edvan tinha feito trabalhos de limpeza na casa de Rosângela.

8. 27 de abril - Luís Eduardo Magalhães - Eguiomar Vieira de Jesus, 45 anos, executada morta pelo ex-marido
A ambulante Eguiomar Vieira de Jesus, 45 anos, foi golpeada no pescoço pelo ex-marido, o também ambulante Marcos Santos de Almeida, 33, preso horas depois. Em depoimento, ele disse que não aceitava o fim do relacionamento, que durou dois meses.

9. 30 de abril - Valença - Aline de Jesus, 17, foi morta pelo namorado, um adolescente de 17 anos 
Um adolescente de 17 anos, assassino confesso da namorada Aline de Jesus, também de 17, foi conduzido à Delegacia Territorial (DT), de Valença, depois de ser apreendido por uma guarnição da 33ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM), na cidade do Baixo Sul baiano. Na delegacia, o jovem confessou que matou a namorada por ciúmes, com oito golpes desferidos com uma faca de cozinha, já encaminhada para perícia.

10. 1º de maio - Jeremoabo - Izabelly Oliveira Bispo Souza, 26 anos, assassinada pelo ex-namorado
A assessora parlamentar Izabelly Oliveira Bispo Souza, 26 anos, foi assassinada com golpes de algum objeto perfurocortante. "Pelas características das lesões foi algum objeto contundente, como uma foice ou um facão", explicou o delegado. Uma amiga próxima da vítima disse em entrevista ao CORREIO que a jovem vivia um relacionamento conturbado com o ex-namorado, Raul de Jesus, 24, principal suspeito de cometer o crime.

11. 3 de maio - Camaçari - Girleide Silva de Souza, 34 anos, morta a facadas pelo ex
Morta a facadas em Camaçari, Região Metropolitana de Salvador. O ex-marido é acusado pelo crime. O nome do suspeito não foi divulgado e não foi possível obter mais detalhes do caso.

12. 10 de maio - Ibirapitanga - Odailda dos Santos Passos, 30 anos, morta com machado pelo marido
Morta com um golpe de machado em Ibirapitanga, no Sul do estado. O marido, identificado como Carlos, é acusado. Segundo a polícia, que não divulgou o nome completo do acusado, o casal saiu pela manhã, no dia do crime, para trabalhar em uma fazenda que fica na zona rural. Enquanto coletavam lenha, quando Carlos surpreendeu Odailda com o golpe na cabeça. Ela caiu sobre a madeira morta. Ainda conforme a polícia, logo após o crime, o suspeito telefonou para a cunhada, contou sobre o feminicídio e fugiu. Abuso de filha de 12 anos da vítima é investigado.

13. 30 de maio - Cachoeira - Simone Conceição da Mota, 28 anos, morta com facão por não aceitar namoro
Morta em Cachoeira, no Recôncavo, segundo a polícia, pelo lavrador Bartolomeu Barbosa Vieira Filho. A vítima teria se recusado um relacionamento com ele, que, inconformado, usou um facão para atacá-la com um facão. Filha de 5 anos da vítima presenciou o crime. O processo foi distribuído em 27 de novembro. Ele responde por homicídio qualificado.

14. 3 de junho - Conceição do Jacuípe - Mariluce Ferreira de Lima, morta a tiros pelo companheiro
Morta em Conceição do Jacuípe, no Centro-Norte. O companheiro Josimar Brito Ferreira Portugal é acusado pelo crime, praticado depois de ele ver chamada no celular dela. Mariluce foi morta com um tiro no pescoço, dentro da casa da mãe. Josimar foi preso em flagrante por homicídio qualificado. O processo está pronto para setença desde 26 de setembro.

15. 8 de junho - Vera Cruz - Helem Moreira dos Santos, 28 anos, esfaqueada pelo ex-companheiro
Dois meses antes de ser morta a facadas em Vera Cruz, na Região Metropolitana, pelo companheiro, o taxista Ângelo da Silva, 25, Helem relatou a uma amiga que o companheiro não aceitava o fim do relacionamento. "Terminei mas ele não aceita bem, fica ligando e vindo aqui", afirmou ela, no dia 14 de abril, em conversa registrada pelo aplicativo WhatsApp. A pedagoga comentou, ainda, a necessidade de sair de casa. O caso não foi encontrado no sistema do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA).

16. 11 de junho - Salvador - Luana Fernandes Hungria, 24 anos, morta a tiros pelo namorado
O namorado, José Carlos Lopes Júnior, é acusado de matar Luana no bairro do Uruguai, após tirá-la de um imóvel e atirar contra ela no meio da rua. Ele disse ouvir vozes afirmando que era traído. A Justiça baiana recebeu a denúncia por homicídio qualificado em 5 de setembro. O julgamento foi marcado para 21 de fevereiro de 2018, às 14h, no Salão do Júri, no Nazaré. Um mês antes do crime, ele se declarava em redes sociais: 'Obrigado por me fazer feliz'.

17. 15 de junho - Lauro de Freitas - Jussara de Oliveira, 36 anos, morta pelo marido
Morta em Lauro de Freitas. O marido, Alexandre, é acusado. Os filhos dela, Felipe de Oliveira, 20, e Ângela de Oliveira, 14, também foram mortos. A família da vítima suspeita que Jussara tenha sido morta porque o ex-marido dela não aceitava o fim do relacionamento. O nome completo do suspeito não divulgado.

18. 20 de junho - Juazeiro - Laise dos Santos Silva, 20 anos, morta por ex-namorado
ex-namorado, identificado como Anderson, é acusado do crime  em Juazeiro, no Vale do São Francisco. Laise estava retornando de mototáxi do trabalho quando foi atacada. O suspeito pelo crime é o ex-companheiro que não aceitava o fim do namoro. Laise já tinha inclusive conseguido uma medida protetiva que proibia o ex de se aproximar dela. O nome completo do suspeito não foi divulgado pela polícia.

19. 24 de junho - Lauro de Freitas - Vanúcia dos Santos, 48 anos, assassinada pelo marido
Foi morta pelo marido, o marceneiro José Cosme Alves Brito, 51, em Lauro de Freitas. Ele foi espancado por populares após o crime. Vanúcia acreditava que o marido estava ‘doente espiritualmente’. A bebedeira, as traições e o comportamento violento não passavam de uma fase daquele homem que, até então, aparentava compartilhar da mesma fé que ela. No dia 24 de junho, a aposentada foi vítima de um feminicídio: foi morta a facadas por ele, segundo parentes e vizinhos. Agora, a família de Vanúcia aguarda a data do julgamento de José Cosme, que vai a júri popular. Ele está preso no Complexo Penal da Mata Escura e a última audiência do caso foi no dia 16 de outubro.

“É muito doloroso para a gente. Dia 26 agora seria aniversário dela. A gente comemorava o Natal e depois o aniversário dela. Só peço justiça”, diz a nora da vítima, a dona de casa Daniele Gomes.
Mesmo após quase seis meses, ela conta que a dor não passou. Hoje, Daniele tenta conscientizar outras mulheres a denunciar possíveis abusos. Diz que passou a ser mais cuidadosa, especialmente com aquelas que são de sua família. “A gente tem medo. Fiquei com aquele trauma de homem, porque a gente pensa que só acontece com os outros, mas, quando a gente passa a viver, é diferente. As mulheres, às vezes, acham que foi só uma briga, só uma discussão, mas chega nesse ponto que chegou com minha sogra”. Justiça recebeu a denúncia por homicídio qualificado em 18 de julho.
20. 24 de junho - Simões Filho - Daniela Santos Melo, 26 anos, 
Morta a tiros em Simões Filho. O companheiro, Gilmar Batista da Silva é acusado de ter cometido o crime. Justiça recebeu a denúncia por homicídio qualificado em 13/9

21. 29 de junho - Guaratinga - Adália Pereira de Jesus, 50 anos
Morta a marteladas em Guaratinga, no Extremo-Sul. O companheiro, José Ferreira da Silva, 49, é acusado pelo crime. Suspeito se enforcou em seguida.

22. 30 de junho - Salvador - Marlene Rodrigues Moura, 62 anos, morta a facadas por namorado
Morta a facadas no bairro de São Cristóvão. O namorado, José Amadeu dos Santos, 52, é acusado pelo crime. O processo Justiça recebeu a denúncia por homicídio qualificado em 28/8

23. 27 de junho - Porto Seguro - Dominik Miranda Viana, 15 anos, morta com punhal por namorado
Morta a punhaladas numa casa de shows em Porto Seguro, no Sul. O namorado, Joelson Borges Santos, 23, é acusado pelo crime. Justiça recebeu a denúncia por homicídio qualificado em 3 de outubro.

24. 20 de julho - Feira de Santana - Risoleta Araújo Alencar, 30 anos, gestante morta pelo marido
Grávida, foi morta a facadas em Feira de Santana. O marido, o deficiente visual Teódulo Ferreira dos Santos, 34, é acusado. Ele não aceitava dividir as tarefas domésticas. Processo foi recebido pela Justiça em 8 de agosto e o acusado está preso por homicídio qualificado.

25. 31 de julho - Dias D'Ávila - Daniela Vaz Ribeiro, 24 anos, assassinada a tiros pelo marido
Morta em Dias D’Ávila, na Região Metropolitana de Salvador. O marido, Danilo Dias Melo, 21, é acusado pelo crime. Teria agido após ver uma conversa no celular dela. Não foi encontrado no sistema do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA)

26. 4 de agosto - Salvador - Cláudia Santana de Oliveira, 26 anos, morta pelo namorado
Morta por asfixia no bairro de Itapuã. O namorado, o pedreiro Edgar Pereira Costa, 46, é acusado pelo crime. O corpo da dona de casa com quem o pedreiro mantinha um relacionamento havia sete meses, foi encontrado pela polícia dentro de um saco, no banheiro da casa do casal. De acordo com a Polícia Civil, Edgar asfixiou e chegou a provocar lesões graves na genitália de Cláudia. A Justiça recebeu a denúncia por feminicídio em 29 de agosto.

27. 27 de agosto - Jaguarari - Graciela de Souza Dias, 21 anos, morta pelo ex-marido
Morta em Jaguarari, no Centro-Norte. O ex-marido João Bonfim da Silva, 42, é acusado. Não aceitava o fim do relacionamento. Não foi encontrado no sistema do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA)

28. 8 de setembro - Salvador - Rejane Vieira Gomes da Silva, 42 anos, executada pelo marido
Morta a tiros em Fazenda Coutos III. O marido, Maurício Celestino da Silva, 46, é acusado. O acusado foi preso em flagrante por homicídio qualificado, mas teve a prisão preventiva revogada em 28/9.

29. 30 de setembro - Salvador - Marília Natércia Andrade Sampaio, 32 anos, morta por homem que conheceu na internet
Morta em Itapuã. O comerciante João Paulo Castro Moreira, 30, é acusado e está preso. Dono de um lava a jato, ele é suspeito de matar outras mulheres em Salvador. Justiça recebeu a denúncia pelo feminicídio de Marília em 26 de outubro.

30. 18 de outubro - Salvador - Maria Lucília Santos de Jesus, assassinada pelo companheiro
Morta a punhaladas em Pernambués. O companheiro, o caseiro Orlando de Jesus, 53 anos, é acusado pelo crime. Ele escondeu o corpo debaixo da cama. Justiça recebeu a denúncia por feminicídio em 13/12. 

31. 10 de novembro - Salvador - Janaína Silva de Oliveira, 42 anos, morta pelo marido
A corretora de imóveis Janaína foi morta a facadas dentro do apartamento onde morava, no Barbalho, e o corpo foi encontrado pela filha dela no final da tarde do mesmo dia. O marido Aidilson Viana de Souza foi acusado pelo crime. Amigos da família e vizinhos do casal disseram que Aidilson era um homem ciumento, e que as brigas entre eles eram conhecidas no bairro. Numa madrugada, os dois tiveram mais uma discussão. Ela foi golpeada nas costas, correu para o quatro e conseguiu trancar a porta. Uma amiga da vítima contou que o suspeito teria deixado o celular e os documentos dele dentro de casa e que, por isso, passou a noite inteira rondando o prédio. A polícia solicitou as imagens de câmeras da região que podem ter registrado a movimentação após o crime. A revolta da família de Janaína ficou ainda maior depois que Aidilson saiu da prisão, na quinta-feira (14). Depois de ficar por 30 dias no Complexo Penal da Mata Escura, o acusado não teve a prisão preventiva revogada pelo juiz Eduardo Augusto Leopoldino Santana, da 1ª Vara do Tribunal do Júri. Para a filha de Janaína, a gestora comercial Priscila Gama, 27, a decisão da Justiça mostra impunidade.

“Ninguém passa por isso. Eles não estão sendo condenados. Deveriam, no mínimo, ficar presos”, diz.
Ela reforça que as mulheres não devem se calar e tentar se libertar de relacionamentos abusivos. Justiça recebeu denúncia por homicídio qualificado em 11 de dezembro.
32. 13 de novembro - Salvador - Daniela Bispo dos Santos, 38 anos, assassinada por namorado
Morta a pedradas por um namorado, na Pituba. Mateus Viliam Oliveira Alecrim Dourado Araújo confessou ter matado a jornalista. Não foi encontrado no sistema do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA).

33. 16 de dezembro - Serrinha - Daiane Reis, 25 anos, executada pelo marido
Grávida, foi morta com um tiro na nuca. O marido, Adilson Padro Lima Júnior, 25, confessou o crime. O parto estava marcado para ontem. Não foi encontrado no sistema do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA). Segundo a Polícia Civil, ele vai responder por feminicídio.

Fonte: Correio da Bahia

O algoz não vai ter mais razão

Há um desespero cômico naqueles que não falam mais sozinhos e são obrigados a aceitar outras vozes

Por Djamila Ribeiro Do Carta Capital
Assistimos a um verdadeiro show de demonstração de desespero de homens brancos nos últimos tempos. Alguns pequenos avanços no que diz respeito a um maior acesso de mulheres e homens negros a alguns espaços desencadearam uma reação no mínimo engraçada.
São textos, artigos e livros, sem base alguma, somente com o intuito de se colocarem como vítimas de “feministas raivosas linchadoras”. Todo mundo sabe que para falar de algo é preciso conhecer.
Existe o princípio básico da honestidade intelectual. Mas, para contrapor epistemologias feministas ou negras, esses homens julgam poder falar sem saber, pois, ora, são homens brancos, logo pensam e existem.
Foi lançado, recentemente, um livro no qual o autor se pensa corajoso por criticar os ditos excessos dos movimentos “identitários”. Coragem, dizia Kant, não é uma qualidade moral, um assassino pode ter a coragem de matar uma mulher que não o quis mais.
Nesse sentido, qual a coragem em focar a sua visão superficial em grupos que lutam para conquistar suas humanidades do alto de seu apartamento no Leblon? Qual o ponto em se colocar como forasteiro por debater esses temas, quando a maior parte dos estudos sobre a questão racial no Brasil foi produzida por brancos?
Por mais que tenhamos estudos importantíssimos realizados por negros nesse sentido, é sabido que, historicamente, a população negra não acessou espaços de produção de saber e que esses estudos seguem sem legitimação.
Realmente, acredito que existem comportamentos e estratégias excessivas por parte de algumas militâncias, mas estes jamais podem ser comparados ao fato de poder morrer por ser quem se é.
Em um país em que a cada cinco minutos uma mulher é agredida pelo companheiro, que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, nossa postura ética deveria ser a de pensar saídas para isso e não seguir pulando corpos se autointitulando o que não se é. Esse homem seguirá criticando os supostos excessos na segurança que o mundo lhe confere pela identidade que carrega.
Homens brancos são os donos dos meios de produção, a maioria de professores universitários, publicados por grandes editoras, qual o papel de forasteiro aqui? Homem branco é a norma, não tem nada de forasteiro e de mais “identitário” do que isso. Um grupo que governa para si e se vitimiza quando é obrigado a coexistir com outras vozes.
É isso o que a gente busca: coexistir. Mulheres negras não possuem poder institucional algum para proibir homens brancos de falar. Nem estrutural. O que pleiteamos quando pensamos lugares de fala é que existam vozes múltiplas e não mais a imposição de uma voz.
Patricia Hill Collins, intelectual estadunidense, afirma que o local em que as mulheres negras ocupam no movimento feminista é o de “forasteira de dentro”. Por estar e ao mesmo tempo não estar, entende esse lugar como um espaço de fronteira ocupado por grupos com poder desigual, pois, ao mesmo tempo que essas mulheres estão em algumas instituições, não são tratadas como iguais.
Logo, é extremamente desonesto um homem branco valer-se desse conceito para si, quando ele é a norma. Esse homem branco publicou o seu livro num país que quase não publica negros. Qual o ponto de ser forasteiro? Ele só é mais um “de dentro”.
Outro absurdo e violência é se dizerem linchados, quando sabemos que o próprio nome linchamento vem da Lei de Lynch, famoso por castigar negros escravizados. Um menino negro que rouba algo pode ser amarrado em poste e linchado, como aconteceu várias vezes no Brasil.
Um homem branco, não. Ou alguém cogitou linchar Eduardo Cunha, Michel Temer e outros? O que eles chamam de linchamento é a necessidade de se confrontar com os próprios privilégios, que eles pensavam providencialmente fixados e não frutos de opressão de outros grupos.
O cineasta Cacá Diegues, em um artigo raso para a Folha de S.Paulo, disse “lugar de fala é uma bobagem universitária”.
E poderia ter terminado assim: “Assinado, o homem branco”. Há vários estudos sobre o tema, eu mesma acabo de lançar um livro a respeito, mas ele diz que é bobagem sem ter lido e partindo de um entendimento errôneo de que lugar de fala é proibir outros de falar, quando é justamente o contrário.
Se eu afirmasse que um conceito é uma bobagem, porque eu disse e minha mãe disse que é verdade, como reagiriam? Eu sou acadêmica, sei muito bem que precisamos estudar nosso objeto de crítica, mas Cacá Diegues afirma por achar que pode, pois foi criado para se julgar o centro do universo.
Todas essas atitudes mostram o desespero do homem branco em não ser mais único, de precisar se confrontar com as verdades e conhecimentos daqueles que ele categorizou como “outros”.
Só que agora, na trilha de luta de quem os antecedeu, esses outros entenderam a necessidade de definir a si mesmos, como nos ensina Collins, de reconfigurar o mundo por outras perspectivas, olhares, saberes. Entendemos que o algoz não vai ter mais razão.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

ONU Mulheres usa internet para combater feminicídio na América Latina e Caribe

Em todo o mundo, ao menos uma em cada três mulheres com mais de 15 anos já foi alvo de violência sexual, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), de 2013. A situação é ainda mais preocupante na América Latina e Caribe, onde, de acordo com o secretariado da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicado a promover a igualdade de gênero e o empoderamento feminino, a ONU Mulheres, estão 14 dos 25 países com as maiores taxas de assassinatos de mulheres por razões de gênero. No Brasil, segundo o Mapa da Violência Sobre Homicídios de Mulheres, divulgado em 2015, mais de 106 mil mulheres foram assassinadas em todo o país.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Projeto Força Feminina promove seminário para refletir sobre Violência contra as mulheres que estão em situação de prostituição.


É preciso discutir a Violência contra a Mulher à todo momento. Não é "mi-mi-mi"... é resistência, é fortalecimento, é representação. O nosso grito precisa ser ecoado aos quatros cantos, para que a sociedade saiba que estamos em LUTA por essa causa...  JUNTAS / VIVAS.

O Projeto Força Feminina fecha o ciclo de palestras dos Encontros Cirandas Parceiras com o seminário ocorrido no Centro Cultural da Câmara de Vereadores de Salvador. 

Esse caminho não foi traçado só, tivemos apoio de diversos profissionais parceiros que acreditam nesta causa e não cansam de lutar. Foram 04 encontros durante o ano realizados na sede do projeto:
     Março – Envolvimento Feminino Com Drogas” -  Jeane Freitias De Oliveira – Profa Dra Enfermagem Ufba
       Maio –   “Violência Contra A Mulher E Vínculos Familiares” -  Cap. Pm Ana Paula Quirós “Ronda Maria Da Penha”
     Julho –   “Violência Obstetrícia -  Rita Calfa Diretora Geral Da Maternidade Tsylla Balbino”
     Setembro - “Descriminalização Do Aborto – Greice Menezes Ufba E Jamaica Santos Iperba”.


O seminário realizado no dia 29 de novembro, com o tema:"Sensibilizando para o enfrentamento de situações de violência contra a mulher que exerce a prostituição" levantou reflexões importantíssima tendo na parte da manhã a colaboração da delegada titular da DEAM de Brotas Dr. Helenice Nascimento; da advogada feminista Dr. Laina Crisóstomo e coordenadora da ONG TamoJuntas e a presidenta do Geledés - Instituto da Mulher Negra Dr. Maria Sylvia. 

Pela tarde contamos com presença de Vilma Reis referência em ações de garantia e ampliação de direitos das mulheres, jovens e da população negra em geral, socióloga e ouvidora a Defensoria Pública da Bahia; Cláudia Correia – Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres – Câmara Municipal de Salvador / Membro do Grupo de Trabalho da Rede de Atenção a Mulheres em Situação de Violência; Nágila Brito - responsável pela Coordenadoria da Mulher, do Tribunal de Justiça da Bahia. Luta em combate ao feminicídio e dar prioridade na análise de processos que envolvam o enfretamento da violência contra a mulher e da TV Bahia na pessoa de Camila Marinho para divulgação da campanha "Sou mulher, quero respeito". 

Agradecemos imensamente a colaboração de todos... Centro Cultural da Câmara pela parceria dos eventos que realizamos no local, dos palestrantes que com muito empenho tornaram o dia enriquecedor e de todos presentes que acreditam que é necessário ressignificar para obter resultados efetivos na luta contra a violência às mulheres. 


  











segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Racismo não dá descanso e impacta a saúde e o trabalho dos negros no Brasil

Racismo não admitido dá menos oportunidades e afeta ascensão profissional dos negros. Eles têm salários menores, ainda que com o mesmo tempo de estudos de não negros



#estamossemprenaluta



"Consciência Negra é ter, cotidianamente, práticas antirracistas. É reconhecer a necessidade de ações afirmativas para reparar o legado escravocrata." (Débora Garcia - Brasil de Fato)

"...a invisibilidade da população negra é uma das violações mais graves aos direitos humanos." (Roberta Lira - ND Online/Geledés)

20 de novembro marca o Dia da Consciência Negra, dia da morte de Zumbi dos Palmares, ocorrida em 1695. #resistência #empoderamento #identidade#respeito #igualdade #consciêncianegra#justiçasocial #oblatas


“Mulheres não denunciam, porque chegar a julgamento é quase pior que o estupro”

Leslee Udwin, autora de documentário sobre estupro censurado na Índia, vê na educação a chave contra os abusos sexuais


Ela entendeu tudo quando entrevistou os estupradores: “Não são monstros, estão programados”. A cineasta e educadora britânica Leslee Udwin lançou em 2015 o documentário sobre um estupro coletivo que provocou comoção mundial e levou às ruas milhares de pessoas na Índia. Uma estudante de fisioterapia de 23 anos, Jyoti Singh, foi estuprada por cinco homens num ônibus de transporte público que continuou seu percurso pelas ruas de Nova Déli enquanto ela era atacada. Um deles lhe arrancou as vísceras. Ela morreu no hospital dias depois.
Pelo documentário, A Filha da Índia (título original India’s Daughter) —no qual falam os pais da vítima, familiares dos condenados, advogados, autoridades policiais e judiciárias e um dos condenados— Udwin ganhou diversos prêmios, como o Peabody Award, norte-americano, e o Anna Lindh de Direitos Humanos no Parlamento sueco. Foi escolhida pelos leitores do jornal The New York Times como a segunda mulher mais impactante de 2015, atrás de Hillary Clinton. E recebeu o apoio de estrelas de Hollywood como Meryl Streep e Sean Penn. Para ela foi uma epifania constatar que aqueles condenados à prisão perpétua não eram os selvagens que ela esperava encontrar. E parou de gravar filmes. Trocou a carreira cinematográfica por outra em que derrama toda a paixão que mostra ao falar: a educação.
“Por que diabos nos surpreendem casos como o de Weinstein?”, pergunta esta ativista dos direitos humanos sobre o escândalo de abusos sexuais de maior repercussão dos últimos meses. O todo-poderoso produtor de Hollywood Harvey Weinstein foi acusado de assédio e estupro por dezenas de mulheres. “Uma em cada cinco mulheres no mundo foi estuprada, uma em cada três sofreu abusos, então há motivo para pensar que um homem em cada três os comete. O mundo inteiro está cheio de predadores sexuais, e o mais famoso agora é presidente dos Estados Unidos, que todos ouvimos dizer: ‘Quando você é um astro, deixam você fazer qualquer coisa. Agarrá-las pela boceta”, afirma Udwin. A cineasta acompanha indignada o julgamento enfrentado na Espanha por cinco homens acusados do estupro coletivo de uma jovem de 19 anos durante as festas de San Fermín, conhecidos como A Manada. “Não é raro que se tente culpar a vítima, é uma constante no mundo todo. A maioria das mulheres não denuncia porque sabe que chegar aos tribunais quase é pior que o estupro. Torna-se uma conspiração para acusá-las.”
Udwin, nascida em 1957 em Sayvon (Israel) e com nacionalidade britânica e israelense, critica a “hipocrisia” de apagar Kevin Spacey de um filme depois de divulgada a denúncia de abuso sexual feita contra ele por um ator, à qual logo se acrescentaram outras, de homens da equipe de filmagem da série House of Cards. “Quem acredita que isso vá mudar alguma coisa? É só uma miragem. Spacey foi acusado, mas ainda não julgado. E enquanto isso, Donald Trump continua impune no trabalho mais poderoso do mundo.”
A diretora Leslee Udwin (direita), junto da atriz Meryl Streep.ampliar foto
A diretora Leslee Udwin (direita), junto da atriz Meryl Streep.
Também considera que campanhas como a de #MeToo (Eu Também), pela qual milhares de mulheres denunciaram nas redes sociais ter sido vítimas de agressões sexuais, “aumentam o desgaste” e são “passageiras”. “Não estou dizendo que seja uma perde de tempo. Ajuda individualmente quem sofre por isso, mas é superestimado. É considerado uma solução, mas não é”, explica no centro de convenções de Doha (Qatar), onde esta semana foi realizado o congresso de inovação educacional WISE, no qual Udwin foi palestrante e para o qual foi convidado o EL PAÍS. “Não precisamos ser convencidos de que as mulheres sofrem abusos, são ofendidas, são mais mal pagas ou são sub-representadas nas instituições. Não é um fato novo.”

Justiça e liberdade

Em seu documentário, cuja exibição continua proibida na Índia, são mostradas também as diversas manifestações, iniciadas no dia seguinte ao estupro, em dezembro de 2012. Centenas de milhares de pessoas pelas ruas enfrentando a polícia e pedindo justiça e liberdade. “Eu também pensei então que era o começo da mudança, nunca tinha vista tanta paixão. Mas não deu em nada. Falamos de um problema endêmico, está nas mentes e na cultura.”
Após longas conversas com os condenados (dos quais somente um fala no filme), mudou sua forma de entender o mundo: “Se você quiser fazer de verdade alguma coisa, é preciso se concentrar na educação”. Compreendeu, como ela mesma explica, que os estupradores não eram monstros. “Alguém que arranca as vísceras de outro ser humano deveria ser um monstro, mas me sentei com eles, e dois em particular pareciam sensíveis sobre diversos assuntos. Um até chorou porque não poderia continuar seus estudos universitários.” Na Índia, as famílias comemoram o nascimento de um filho, mas não de uma filha. É considerado inapropriado que uma mulher saia à noite sem seu marido ou sua família, como apontam o motorista do ônibus (também condenado) e um dos advogados no filme: “Se você deixa um diamante na rua, é inevitável que um cachorro o leve”.
“Achamos que a violência seja o problema, mas na verdade é o sintoma. Quem deveria ter ensinado a esses homens que sua vítima tinha todo direito do mundo de sair para ver um filme à noite com um amigo? A família? A lei? A cultura? A escola é a responsável, a que deve educar uma criança e prepará-la para a vida”, reflete.
Depois do documentário, fundou a Think Equal (Pense Igual), organização com a qual pretende implantar um currículo de educação infantil para combater a discriminação com um plano sistemático ao longo do an, que recebeu o apoio de pensadores da educação como Ken Robinson e os das escolas Montessori: “Mandela dizia que a educação é a arma mais poderosa que temos para mudar o mundo. Dizia que nenhum ser humano nasce odiando outro. A criança é educada no ódio, mas também pode ser educada no amor.”

UM CURRÍCULO CONTRA A DISCRIMINAÇÃO

O programa que Udwin promove de aprendizagem social e emocional (Think Equal) inclui um planejamento sistemático na escola. “As crianças precisam que lhes ensinem essas coisas assim como fazem com a matemática, elas não aprendem de forma natural.” Com uma equipe de 25 pessoas, a organização desenvolveu um currículo de 280 páginas e 140 lições para alunos a partir de três anos de idade, prevendo quatro aulas por semana (de meia hora cada) e 36 livros de contos (um por semana de aula). São gratuitos para as escolas que queiram implantá-los. “Só pedimos em troca que o sigam de forma séria e sistemática”, explica a cineasta. Começou este ano a implantação de um programa piloto com cerca de 4.000 alunos de três anos em perto de 20 centros em sete países. A Argentina até o momento é o único país de língua espanhola a ter mostrado interesse. No site da Think Equal, o Brasil não aparece entre os participantes. A Universidade de Yale avalia os primeiros resultados do programa.